O mestre do samba


"Contar é muito dificultoso; 

Não pelos anos que se passaram;

Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas"

Guimarães Rosa



A importância de se contar histórias, de entender a relação do homem com o seu tempo, de um homem negro, nascido em 1928 no interior de Minas e que se tornou a referência do samba na década de 1970, o fino do samba, como um dos maiores intérpretes da música “volta por cima”. Quem nunca utilizou o bordão “levanta, sacode a poeira”? Jair Rodrigues o chamava de mestre, Ataulfo Alves se referia como seu sucessor.

Noite Ilustrada é até hoje considerado a grande voz do samba de São Paulo. O cantor foi  “A marca de um tempo, o retrato de um samba que ilustrou tantos dias, noites e madrugadas; Chorou, Caiu, levantou, conheceu a descida; Aprendeu bem depressa as lições dessa vida; se formou professor nessa sua jornada” - tomando a liberdade de parafrasear a música perfil de um sambista, composta por Adauto Santos para o músico.

Mario de Souza Marques Filho foi um vencedor, daqueles que fornecem orgulho para a história. Seu sucesso foi tanto que, mesmo desagradando alguns brancos influentes de São Paulo, gravou “Volta por cima”, pois ninguém mais poderia fazê-lo, sua interpretação já estava intrinsecamente ligada a música. Talvez o caro leitor não tenha conhecimento, mas na década de 1950 as grandes boates de São Paulo se equiparavam ao canal do Youtube de hoje em dia e se você fizesse sucesso nelas seria contratado da Globo, isto é, gravaria um LP. E foi, nas grandes boates paulistas, que estourou com “volta por cima”,O neguinho e a senhorita” (Noel Rosa de Oliveira), “Meus tempos de criança”, “Laranja madura” e “Pois é” (Ataulfo Alves).

Noite ganhou diversos prêmios ao longo da sua trajetória, “Troféu Roquete Pinto", um dos mais importantes no cenário brasileiro da época ;  disco de Ouro e de platina pelo disco “Cada vez melhor” ; disco de Ouro pelo CD “Casa de samba II”, e ainda gravou o filme “A pequena órfã”. No seu escritório, em Atibaia, era possível observar duas paredes repletas de troféus e inúmeras homenagens. Mesmo após o seu falecimento em 2003, devido a um câncer de pulmão, recebeu o prêmio de melhor disco popular no Prêmio Tim de Música, com o CD “Noite Ilustrada canta Lupicínio Rodrigues”. Um ano antes foi homenageado com o prêmio Caras - aclamado em pé pelos artistas que ali estavam, não apenas pelo intérprete que era, mas pela sua luta, pela música popular brasileira, pelo seu caráter!

“Houve uma pausa no samba;

Levaram ele de nós;

Eis que se foi mais um bamba;

Silenciou uma voz

Desde os tempos de menino, ele empunhou a bandeira;

O samba foi o seu hino;

Durante uma vida inteira;

Onde se fizer um samba; no raiar da madrugada;

Em qualquer roda de bamba; vai lembrar Noite Ilustrada

Noite Ilustrada, meu amigo, meu irmão; 

vou te ver onde tiver, uma voz, um violão;

Noite Ilustrada, o que eu quero te dizer, 

quem te viu na madrugada nunca mais vai te esquecer”

José Domingos